
Segundo o dicionário Aurélio, autodidata é “aquele que aprendeu ou aprende por si, sem auxílio de professores”. Sou um típico autodidata. Todos os meus estudos na bateria foram realizados por conta própria, e tenho um certo orgulho da minha trajetória, pois não é fácil aprender bateria sozinho, principalmente quando não se tem o instrumento para a prática diária. Foi o que aconteceu comigo: adquiri minha primeira bateria sete meses depois que iniciei os estudos (a primeira bateria é assunto para outro post).
Bem, para explicar como funcionou este processo, é preciso voltar no tempo, mais precisamente em 1986, quando eu tinha dois anos de idade e ganhei de presente um tambor pequeno. Foi a minha primeira experiência com a vibração dos tambores. Um olhar externo não veria nada além de brincadeira de criança mas, para mim, já era o início do aprendizado daquilo que depois se tornou fundamental: a percepção do som.
Em 1989, a apresentadora de TV Angélica fez um show no Parque de Exposições de Uberaba e eu fui levado pela minha mãe. Feliz coincidência: havia um lugar específico para as crianças e eu fiquei “encarcerado” ali, em uma espécie de camarote improvisado, bem ao lado do baterista da banda de apoio.
Saltamos 10 anos no tempo e, em agosto de 1999, quando eu cursava o primeiro ano do Ensino Médio no então Colégio Promove (que depois se tornou Liceu Albert Einstein), lembro que comecei a ter aulas no período vespertino. As terças-feiras eram dedicadas à Física e as quintas-feiras, à Matemática.
Naquele dia 31, uma terça que me aguardava com a aula de Física, haveria a última exibição do “Programa Livre” ao vivo com o apresentador Serginho Groisman (sua mudança para a TV Globo já estava acertada). O show daquela data especial ficaria por conta da banda Titãs, que já tinha se apresentado por doze vezes no programa, e que tinha afinidade com o apresentador, pois alguns dos músicos conviveram com ele no Colégio Equipe em São Paulo. Eu, que já não gostava de frequentar aulas à tarde, não poderia perder a oportunidade de assistir este episódio. Tirei a poeira do videocassete e tratei de gravar o programa (eu tinha essa gravação até meados de 2004, quando minha irmã caçula resolveu pegar a fita e gravar um show do Evanescence).
Deixei tudo pronto e, às 15h45, começa o programa e a banda inicia o show com a música “Homem Primata”. Ali, percebo um rapaz de óculos escuros, cabelo baixo e que tocava sentado. Era o Charles Gavin, o baterista da banda. Sim, ele seria o responsável por despertar em mim a vontade de ser baterista. Durante o show, minha memória eidética (também conhecida como memória fotográfica de muita precisão) me fez voltar aos dois anos de idade, quando estava sentado no chão tocando meu tambor, e aos cinco anos, quando estava no show da Angélica ao lado do baterista. E eu consigo me lembrar até do ritmo que ele estava fazendo! A conexão estava completa, e eu decidi que queria tocar aquele instrumento!
No dia 5 de dezembro de 1999, tive a oportunidade de sentar na bateria pela primeira vez. Comecei a assimilar os sons de cada peça da bateria, comparando com os sons de apresentações que já havia assistido, em fitas de VHS emprestadas do meu amigo e futuro parceiro de banda Douglas Oliveira. Eram shows dos Titãs (Acústico MTV), Guns n’ Roses gravado em Tóquio, em 1992 (Volume 1), Led Zeppelin “Live at Madison Square Garden“, de 1973 e Kiss “Unplugged MTV“. A observação me ajudou, e muito, a aprender a tocar meu primeiro ritmo.
Tempos depois, quando eu já tinha algum experiência, descobri que esse exercício de observação que fiz dos shows gravados me ajudou a conhecer uma das quatro características do som: o timbre, onde cada instrumento, ou peça do instrumento, tem um som característico.
Aprender sobre o timbre me ajudou a desenvolver outra técnica muito comum para o músico autodidata, conhecida como “tirar de ouvido”. Com minha percepção auditiva apurada, conseguia identificar padrões rítmicos das músicas que ouvia, e isso me fez apurar meu repertório de ritmos. Aprendendo os padrões rítmicos, passei a improvisar em cima destes padrões. E a improvisação me trouxe a habilidade que, na minha opinião, é a mais importante: a criatividade.
E você? Como foi sua primeira experiência musical? Coloque aqui nos comentários!
